A possibilidade de as motos passarem a contar com sistemas capazes de limitar automaticamente a velocidade está a ganhar importância na União Europeia. A tecnologia necessária já existe e muitos motociclos modernos dispõem de componentes eletrónicos que poderiam permitir uma intervenção deste género. A grande questão, agora, não é tanto saber se é tecnicamente possível, mas até onde deverá ir essa intervenção.
O tema está relacionado com a evolução dos sistemas Intelligent Speed Assistance (ISA), ou Assistência Inteligente à Velocidade. Estes sistemas conseguem reconhecer o limite de velocidade aplicável através de informação proveniente de sinais de trânsito, mapas digitais e outros dados, podendo depois informar o condutor, emitir avisos ou, em determinadas configurações, intervir na velocidade do veículo.
No caso das motos, porém, a discussão torna-se particularmente sensível. Uma intervenção direta no acelerador pode ter consequências diferentes das verificadas num automóvel, sobretudo durante ultrapassagens ou situações em que o motociclista precisa de acelerar rapidamente para sair de uma zona de risco.
As motos modernas estão cada vez mais dependentes da eletrónica.
Sistemas como Throttle by Wire, unidades de controlo eletrónico, sensores de velocidade, GPS, plataformas inerciais e modos de condução fazem atualmente parte de muitos modelos.
No caso do Throttle by Wire, por exemplo, o punho do acelerador não precisa de estar diretamente ligado mecanicamente ao motor. O movimento realizado pelo motociclista é interpretado eletronicamente e enviado para a unidade de controlo, que determina a resposta do motor.
Isto significa que, tecnicamente, já existem os componentes necessários para criar diferentes níveis de intervenção sobre a velocidade.
Um sistema de assistência à velocidade pode funcionar de formas muito diferentes.
Num nível menos intrusivo, a moto simplesmente informa o motociclista sobre o limite existente.
Num segundo nível, pode emitir um aviso quando a velocidade ultrapassa o valor detetado.
Outra possibilidade passa por criar uma determinada resistência no acelerador, tornando mais difícil continuar a acelerar.
Finalmente, existe a possibilidade de o sistema reduzir efetivamente a potência disponível para impedir que a velocidade continue a aumentar.
É precisamente este último nível que levanta mais discussão.
O Intelligent Speed Assistance foi desenvolvido para ajudar os condutores a respeitar os limites de velocidade.
A legislação europeia já estabeleceu requisitos para estes sistemas nos automóveis abrangidos pelas novas regras de segurança. O sistema pode utilizar reconhecimento de sinais e informação cartográfica para determinar qual o limite de velocidade aplicável.
A tecnologia não funciona necessariamente como um simples "corte" de velocidade.
Existem diferentes estratégias, desde avisos visuais e sonoros até funções que podem procurar limitar a velocidade através da redução da potência propulsora.
É aqui que começa a verdadeira discussão.
A adaptação do conceito aos motociclos exige considerar situações que podem ser muito diferentes das de um automóvel.
Uma moto pode precisar de uma aceleração rápida para completar uma ultrapassagem, evitar ficar demasiado tempo ao lado de outro veículo ou afastar-se rapidamente de uma situação potencialmente perigosa.
Por isso, uma intervenção demasiado rígida poderia criar um novo problema enquanto tenta resolver outro.
Imagine-se um motociclista numa estrada secundária a ultrapassar um veículo pesado.
Durante a ultrapassagem, pode ser necessário aumentar rapidamente a velocidade para concluir a manobra e regressar à sua faixa.
Se a eletrónica decidir limitar a aceleração precisamente nesse momento, o motociclista poderá ficar mais tempo exposto ao trânsito que está a ultrapassar.
É uma das principais questões levantadas em torno da aplicação deste tipo de tecnologia às motos.
Apesar de ambos utilizarem sistemas eletrónicos cada vez mais sofisticados, a dinâmica de uma moto é bastante diferente.
O equilíbrio, a posição na estrada, a exposição do motociclista e a necessidade de reagir rapidamente tornam determinadas situações particularmente sensíveis.
Por isso, qualquer sistema destinado aos motociclos terá de ser desenvolvido tendo em consideração estas características.
Existe ainda outro problema importante: a informação utilizada pela eletrónica tem de estar correta.
Para saber qual é a velocidade máxima permitida, um sistema pode recorrer a câmaras, GPS, mapas digitais ou bases de dados.
Mas os limites de velocidade podem mudar.
Existem obras, zonas temporárias, alterações de circulação, sinais parcialmente ocultos e situações em que a sinalização pode ser difícil de interpretar.
Um erro num aviso é incómodo.
Um erro que interfira diretamente com o acelerador pode ser muito mais sério.
A própria regulamentação europeia prevê diferentes requisitos para garantir que os sistemas ISA consigam determinar corretamente o limite aplicável.
Do ponto de vista tecnológico, o futuro poderá estar mais próximo do que parece.
Muitos motociclos modernos já possuem:
Estes componentes permitem que a eletrónica tenha uma enorme quantidade de informação sobre aquilo que está a acontecer com a moto.
A questão passa então de "conseguimos fazer?" para "devemos fazê-lo?".
O principal argumento a favor da tecnologia é naturalmente a segurança.
O excesso de velocidade continua a ser apontado pelas instituições europeias como um dos principais fatores de risco na sinistralidade rodoviária. A Comissão Europeia estima que esteja associado a cerca de 30% dos acidentes rodoviários mortais.
Se um sistema conseguir reduzir automaticamente a velocidade quando um veículo ultrapassa o limite legal, poderá contribuir para diminuir determinados tipos de acidentes.
Mas existe uma diferença importante entre ajudar o motociclista e assumir o controlo da moto.
Um sistema que apresenta no painel "120 km/h" ou emite um alerta permite que o motociclista tome a decisão.
Um sistema que cria resistência no acelerador já intervém fisicamente na condução, embora continue a permitir ao condutor reagir.
Um sistema que bloqueia efetivamente a capacidade de acelerar representa um nível completamente diferente de intervenção.
É esta fronteira que está no centro do debate.
Uma das características previstas nas regras europeias para determinadas funções ISA é precisamente a possibilidade de o condutor neutralizar a intervenção através de uma ação positiva.
Isto é importante porque permite distinguir entre uma assistência permanente e um sistema que deixa uma margem para situações excecionais.
Na prática, um futuro sistema para motos poderia, por exemplo, avisar o motociclista, dificultar ligeiramente a aceleração e permitir uma intervenção deliberada quando exista uma necessidade real.
No entanto, qualquer solução deste género terá de ser cuidadosamente estudada.
Outro desafio será lidar com situações em que a velocidade permitida muda temporariamente.
Obras rodoviárias são um bom exemplo.
Uma estrada que normalmente permite circular a 90 km/h pode passar temporariamente para 50 ou 60 km/h devido a trabalhos.
Se o sistema não reconhecer corretamente a sinalização temporária, poderá aplicar uma informação errada.
Por isso, a qualidade dos mapas, o reconhecimento dos sinais e a capacidade de cruzar diferentes fontes de informação serão fundamentais.
Não.
É importante esclarecer este ponto.
A existência da tecnologia e a discussão sobre a sua utilização não significam que exista atualmente uma nova obrigação europeia para que as motos impeçam automaticamente o excesso de velocidade. O próprio artigo da Motociclismo salienta que o debate está relacionado com a evolução dos sistemas ISA e com a possibilidade de futuras aplicações, não com uma nova regra já em vigor para os motociclos.
Ou seja, não estamos perante uma situação em que as motos atualmente vendidas na Europa vão simplesmente deixar de poder ultrapassar os limites legais.
A questão é o que poderá acontecer no futuro.
A eletrónica já mudou profundamente o motociclismo.
Controlo de tração, ABS em curva, modos de condução, quickshifters, suspensões eletrónicas e sistemas de conectividade são hoje tecnologias perfeitamente normais em muitos modelos.
A evolução da assistência à velocidade é apenas mais um passo nessa transformação.
Quanto mais sistemas eletrónicos forem introduzidos, maior será também a necessidade de garantir que funcionam corretamente.
Uma falha num sistema de entretenimento é inconveniente.
Uma falha num sistema que interfere com o acelerador pode ter consequências completamente diferentes.
Por isso, a fiabilidade e a possibilidade de o motociclista recuperar o controlo serão aspetos fundamentais.
Esta é provavelmente a pergunta mais importante.
Deverá a moto apenas informar?
Deverá avisar?
Deverá criar alguma resistência no acelerador?
Ou deverá efetivamente impedir que o motociclista ultrapasse determinado limite?
Não existe ainda uma resposta definitiva.
E para os motociclistas, esta não é apenas uma discussão tecnológica. É uma discussão sobre a própria relação entre o condutor e a máquina.
A União Europeia já dispõe de tecnologia capaz de permitir diferentes níveis de assistência e controlo da velocidade, e muitos motociclos modernos possuem a eletrónica necessária para que sistemas semelhantes possam evoluir no futuro.
O verdadeiro desafio será encontrar o equilíbrio entre segurança e liberdade de condução.
Reduzir velocidades excessivas pode salvar vidas, mas uma intervenção demasiado rígida sobre o acelerador poderá criar problemas em situações como ultrapassagens, alterações temporárias dos limites ou erros de reconhecimento da sinalização.
Por enquanto, não existe uma nova regra europeia que obrigue as motos a impedir automaticamente o excesso de velocidade.
Mas a tecnologia já está preparada.
E a próxima grande discussão será precisamente esta: até onde queremos que a eletrónica possa mandar na nossa mão direita?
Aviso de Fonte IATexto e Imagem gerada por "IA" com pesquisa em fontes reais online.
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