Nas estradas espanholas está a ser testada uma solução pouco habitual para melhorar a segurança dos motociclistas: círculos brancos pintados no asfalto junto à linha central da estrada.
À primeira vista, estas marcas podem parecer uma nova sinalização rodoviária ou simplesmente uma alteração estética do pavimento. Na realidade, foram concebidas para influenciar o comportamento dos motociclistas durante a passagem pelas curvas, sobretudo nas zonas onde existe maior risco de aproximação excessiva ao eixo da estrada e consequente invasão da trajetória do trânsito em sentido contrário.
A ideia não é criar uma nova faixa para motociclos nem obrigar os condutores a seguir uma trajetória específica através de uma regra tradicional. O objetivo é muito mais simples: criar uma referência visual que leve o motociclista, quase de forma intuitiva, a manter uma distância maior da linha central.
A solução já tem antecedentes noutros países europeus, principalmente na Áustria, onde diferentes tipos de marcações foram estudados durante vários anos com resultados interessantes na redução dos acidentes envolvendo motociclos.
As marcas são colocadas na zona interior da curva, próximas da linha que separa os dois sentidos de trânsito.
O princípio é relativamente simples: o motociclista deve evitar passar sobre os círculos.
Ao fazê-lo, a própria marcação funciona como uma espécie de referência visual que ajuda a afastar a mota da zona central da estrada. Desta forma, existe uma maior margem relativamente aos veículos que circulam em sentido contrário.
A solução procura corrigir um comportamento particularmente perigoso nas curvas: a escolha de uma trajetória demasiado próxima do eixo da estrada.

Quando uma mota entra numa curva, a trajetória escolhida influencia não apenas a posição das rodas, mas também a posição do próprio motociclista.
Em determinadas curvas, principalmente nas curvas à esquerda, uma trajetória demasiado próxima da linha central pode fazer com que o corpo do motociclista se aproxime ainda mais do trânsito em sentido contrário.
Se surgir repentinamente um automóvel, carrinha ou outro veículo, a margem para corrigir a trajetória pode ser muito reduzida.
O sistema dos círculos pretende precisamente criar uma barreira psicológica e visual que incentive o motociclista a manter uma trajetória mais segura.
Apesar de estar agora a chamar a atenção em Espanha, a ideia não é nova.
O KFV — Kuratorium für Verkehrssicherheit, organismo austríaco dedicado à segurança rodoviária, começou há vários anos a estudar marcações especiais destinadas aos motociclistas.
Em vez de círculos, alguns dos projetos austríacos utilizaram elipses brancas, colocadas junto à linha central da estrada.
A lógica era exatamente a mesma: fazer com que os motociclistas evitassem essas marcas e, consequentemente, adotassem uma trajetória mais afastada do centro da estrada.
Um dos projetos mais relevantes foi desenvolvido em 19 curvas consideradas de risco no Tirol.
Segundo o KFV, entre julho de 2019 e o final de 2021 foram registados apenas quatro acidentes de motociclos com feridos nas curvas intervencionadas. A análise realizada pelo organismo apontou para uma redução de 80% dos acidentes de moto nesses locais.
O KFV também salienta que a análise teve em conta a redução da circulação provocada pela pandemia nos anos de 2020 e 2021.
Por isso, embora os resultados sejam bastante positivos, devem ser interpretados dentro do contexto específico das estradas e períodos analisados.
A experiência austríaca acabou por despertar o interesse de outros países.
Em Espanha, este tipo de marcação já está a ser testado em algumas estradas e é apresentado como uma ferramenta de orientação para os motociclistas.
A imprensa espanhola tem identificado estas marcas em diferentes zonas e explica que o objetivo é reduzir o risco associado às trajetórias demasiado próximas do eixo central.
A medida surge num contexto em que as autoridades espanholas procuram novas formas de reduzir a sinistralidade dos motociclistas.
A própria Dirección General de Tráfico (DGT) mantém atualmente a segurança dos utilizadores vulneráveis como uma das áreas importantes da política de segurança rodoviária.
Um dos pontos mais importantes é que os círculos não devem ser confundidos com uma nova obrigação do Código da Estrada espanhol.
Não criam um novo carril, não alteram os limites de velocidade e não dão ao motociclista autorização para circular de determinada forma.
Funcionam essencialmente como uma referência visual.
Nos locais onde estão instalados, a intenção é que o motociclista compreenda que aquela zona junto ao centro da estrada deve ser evitada durante a trajetória da curva.
Uma das partes mais interessantes desta solução está na sua componente psicológica.
Os investigadores austríacos perceberam que os motociclistas tendem naturalmente a evitar determinadas marcações colocadas no pavimento.
O KFV aproveitou precisamente esse comportamento.
As elipses foram concebidas para serem suficientemente visíveis para influenciar a trajetória, mas sem criar uma nova barreira física. O motociclista vê a marcação e, de forma intuitiva, tende a posicionar-se do lado exterior da mesma.
É uma abordagem diferente das tradicionais campanhas de segurança rodoviária.
Em vez de dizer simplesmente “não corte a curva”, a estrada passa a fornecer uma referência visual que ajuda o motociclista a executar uma trajetória mais segura.
Os estudos realizados na Áustria também analisaram o comportamento dos motociclistas.
Num estudo realizado em oito curvas de risco, as marcações provocaram uma alteração significativa das trajetórias.
Antes da instalação, cerca de 36% dos motociclistas utilizavam a zona exterior considerada mais segura no ponto crítico da curva. Em 2020, esse valor tinha aumentado para cerca de 68%.
Nas curvas onde foram utilizadas elipses, o estudo registou ainda uma ausência de acidentes de motociclistas com feridos no período analisado após a instalação das marcações.
Estes dados ajudam a explicar por que motivo a solução continua a despertar interesse vários anos depois dos primeiros testes.
Outra vantagem apontada às marcações é a relativa simplicidade da sua implementação.
Não é necessário construir uma barreira, alterar completamente o desenho da estrada ou instalar equipamentos eletrónicos.
Uma marcação no pavimento pode ser aplicada numa curva problemática e posteriormente avaliada para perceber se alterou o comportamento dos motociclistas.
O KFV considera precisamente que as marcações constituem uma medida relativamente simples e económica para intervir em pontos onde existe um historial de acidentes.
Naturalmente, a solução não pretende substituir outras intervenções de segurança.
Existem curvas onde o problema pode estar relacionado com velocidade excessiva, visibilidade insuficiente, pavimento degradado, desenho inadequado da estrada ou outros fatores.
Os próprios estudos austríacos identificaram diferentes tipos de curvas de risco, incluindo curvas que se tornam progressivamente mais apertadas, conhecidas no contexto motociclístico como “curvas de cão” ou Hundskurven.
Nessas situações, uma simples marcação no pavimento pode ser apenas uma das ferramentas utilizadas.
A possibilidade de esta ideia ser utilizada em Portugal é naturalmente interessante para os motociclistas.
O país possui numerosas estradas secundárias e de montanha com curvas apertadas, muitas delas bastante utilizadas durante passeios de moto.
No entanto, não há atualmente indicação de que Portugal tenha anunciado um programa equivalente ao espanhol.
O facto de uma solução apresentar resultados positivos na Áustria e estar a ser testada em Espanha não significa automaticamente que venha a ser implementada em Portugal.
Seriam necessários estudos e avaliações adaptados às características das estradas portuguesas.
Ainda assim, a simplicidade da medida torna-a interessante.
Em determinadas curvas com histórico de acidentes, uma marcação capaz de influenciar a trajetória poderia complementar outras medidas de segurança.
O mais importante seria avaliar os resultados antes e depois da intervenção, tal como foi feito nos projetos austríacos.
O objetivo não seria simplesmente pintar círculos nas estradas, mas perceber se os motociclistas realmente alteram a trajetória e se essa alteração resulta numa redução dos acidentes.
Apesar da ajuda proporcionada pelas marcações, nenhuma solução pintada no asfalto substitui uma condução adequada.
O próprio KFV continua a recomendar que os motociclistas adaptem a velocidade às condições, mantenham atenção à estrada e pratiquem uma trajetória segura nas curvas.
A entrada numa curva deve ser preparada antecipadamente, evitando travagens bruscas ou correções desnecessárias já em plena inclinação.
A leitura da estrada também é fundamental.
Uma curva que parece simples à entrada pode esconder um veículo em sentido contrário, gravilha, óleo, piso degradado ou uma mudança inesperada no raio da curva.
Os círculos brancos procuram resolver apenas uma parte desse problema: ajudar o motociclista a manter uma posição mais segura dentro da sua própria faixa.
Aviso de Fonte IATexto e Imagem gerada por "IA" com pesquisa em fontes reais online.
Ainda não existem comentários. Sê o primeiro a comentar.